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Ensaio da escritora alagoana Maria do Socorro Ricardo
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Quando os primeiros colonizadores, nas colônias de povoamento, chegaram à América, obedeceram a dois princípios: construir uma escola para as crianças e uma igreja para o povo. Só a educação transpõe a muralha que atrasa um município. Esta memória da educação em Santana do Ipanema-AL, município no Sertão alagoano, carece ser homenageada, celebrada para outros santanenses terem amor à sua história. Ao que, seria de bom conselho, a criação de museu com tais propósitos.
O país se constrói no município. Cada município brasileiro se responsabiliza com a grandeza do Brasil. A escolha do povo e a coragem política constroem o país. O Brasil só é grande graças aos seus municípios. E a educação é o bem maior que atravessa a história. Em Santana do Ipanema-AL a educação acadêmica teve como esteio às utopias do Pe. Bulhões que, no início do século XX, criara o Instituto São Tomás de Aquino. Infelizmente, esta instituição extinguira-se. Era o idealismo de um religioso culto que escolhera um filósofo escolástico para dar nome a instituição educacional. São Tomás de Aquino, um monge medieval da ordem dominicana, posteriormente, professor da Universidade de Paris; escreveu comentários à ética de Aristóteles, à física, à lógica, à sagrada Escritura, além de sumas, questões e opúsculos. Considerado um dos pais da igreja. Foi nele que o padre santanense encontrou inspiração à criação de sua escola em Santana do Ipanema-AL.
Nesta escola, toda a região do Sertão alagoano era acolhida. Os que acreditavam na força da educação iam estudar em Santana do Ipanema. É a educação quem promove o desenvolvimento social e econômico de quaisquer municípios brasileiros. Se se distancia o conhecimento do município, o povo enfraquece em todos os aspectos, sejam moral, ético, religioso, familiar etc. Não haverá crescimento nem respeitabilidade. Os jovens ficarão sem referência.



UNIVERSIDADE ESTADUAL EM SANTANA



Santana do Ipanema conquistara, da UNEAL, o Campus II, durante o governo do santanense Geraldo Bulhões, em Alagoas. Nascia a ESSER, ou seja, a Escola Superior de Ciências Humanas, Físicas e Biológicas do Sertão. E o primeiro vestibular foi em 1996. Santana do Ipanema, pela primeira vez em sua história, poderia oferecer cursos de graduação sob a égide da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL) de Ciências Biológicas, Pedagogia e Zootecnia.
Os estudos em Santana do Ipanema-AL sempre foram acanhados, pois quando se concluía o ensino básico, e se preservava à vontade em continuar os estudos, não ofereciam as instituições de ensino locais nenhuma espécie de graduação conforme hoje são oferecidas Pedagogia, Biologia ou Zootecnia. E os filhos de Santana sentiam-se obrigados a prosseguirem seus estudos em outros Estados, em outras cidades, geralmente, na capital alagoana, ou em Pernambuco ou na Bahia.
Alguns ficavam próximos a Santana; iam até Arcoverde (PE) ou Arapiraca (AL). Entretanto, Maceió era o destino natural de muitos estudantes santanenses; Morche e Marcello Ricardo Almeida foram estudar no Colégio Guido de Fontgaland, na capital. Santanenses que estudaram nas escolas de Santana do Ipanema chegaram ao cargo de desembargador (José Carlos Malta Marques) e de governador (Geraldo Bulhões). E os filhos de outras famílias de Santana, que desejavam receber mais conhecimentos, eram encaminhados para lugares distantes. Breno Acioly, contista respeitado em todo o Brasil, foi estudar Medicina na capital pernambucana, e seu amigo Clodolfo Rodrigues. Shyko Farias Ricardo, técnico da Seleção Brasileira de Handebol, outro que tem sua história agregada à educação alagoana.



UM CEFET PARA SANTANA DO IPANEMA


Pode-se considerar, as primeiras e únicas escolas técnicas, até então, em Santana do Ipanema-AL resumiram-se, primeiro, à escola de datilografia (uma delas a Escola de Datilografia de Dona Flora), e depois, escolas de informática. Entretanto, há quase cem anos existe o Centro Federal de Educação Tecnológica, (CEFET). Desde 1909, quando Nilo Peçanha, sétimo presidente do Brasil, decretou a criação, no Rio de Janeiro, então capital federal, de escolas técnicas de constituição gratuita.
Passaram-se décadas e Santana do Ipanema-AL ainda não conseguira transpor a muralha e trazer às suas dependências territoriais o sonho de Nilo Peçanha: escola técnica gratuita.
Para a vida de quem quis ou quer estudar, tudo foi sempre muito difícil desde a matrícula, manter-se na escola, concluir os estudos fundamentais, sonhar com uma graduação, aprender uma profissão em escola técnica (Satuba-AL, a mais próxima), ser chamado para trabalhar, constituir família, ter uma vida digna, ser cidadão. Os filhos de Santana sempre sonharam com bolsas de estudo para se matricularem em boas escolas particulares. Embora seja notório a inversão, quando o ensino superior gratuito, via de regra, é melhor se comparado à universidade particular; e o ensino público gratuito médio inferior ao ensino médio privado.



ENSINO MÉDIO



Um velho casarão, no bairro nobre da cidade, abriga o cinqüentenário Ginásio Santana – educando o sertanejo alagoano. Tudo teve início no dia 20 de julho de 1949, com o empreendedorismo educacional do Pe. Teófanes Augusto de Barros Araújo que estimulou os sertanejos alagoanos a construírem uma escola sob a égide da Campanha Nacional de Educandários Gratuitos. Uma coisa que nunca entendi: se o Ginásio era de graça, por que quem estuda tem que pagar matrícula e mensalidade?
Dia 11 de fevereiro de 1950, funda-se a sociedade Ginásio Santana sob a presidência de João Silva Yoyô Filho, que iria administrá-lo. Dia 15 de março de 1950 a expectativa da aula inaugural no prédio do Grupo Escolar Padre Francisco Correia. Aos 13 de fevereiro de 1956 implanta-se o segundo grau (atual ensino médio) que poderia ter sido com uma escola técnica de Agronomia, haja vista a vocação agro-pecuária de Santana do Ipanema; porém, vence o comércio cuja sugestão é para que se crie um curso de Contabilidade. Nas dependências do Ginásio Santana surge o Colégio Santo Tomás de Aquino, em março de 1956; e iniciam-se as aulas com 21 alunos; apenas nove terminam o Curso de Contabilidade no Sto. Tomás de Aquino, no ano de 1958. Nas mesmas dependências do Ginásio Santana, em 7 de março de 1960, foi implantado o Curso Normal Rural Pe. José Bulhões.
Além do Ginásio Santana, na década de 1990, no entanto, surge o Colégio Divino Mestre por iniciativa dos educadores Gileno de Melo, Leda Fausto, José Francisco Lemos e Maria Helena. Este colégio vem preencher a lacuna de outro nome na rede privada. Oferece opções, inclusive graduação e pós-graduação filiadas à instituição com mais experiências educacionais.
No governo militar de Luiz Cavalcante, na primeira metade da década de 1960, em bairro afastado do centro da cidade, é inaugurado o Colégio Estadual Prof. Deraldo Campos, onde o professor Mileno Ferreira foi diretor por muitos anos e, com seu falecimento, o nome do colégio foi substituído em homenagem ao santanense Mileno. Muitos professores ajudaram a construir a educação em Santana do Ipanema-AL, no Deraldo Campos, além Magda Wanderley, Sílvio Bulhões, Clerisvaldo B. Chagas, Adelson de Miranda, Jurandir Andrade e outros.



A ESCOLA DE PENINA FERREIRA



Uma atitude simples, porém valorosa da Professora Penina. Era uma instituição educacional privada cuja meta, à época escola inovadora, a inclusão. Se hoje há resistência à escola que valoriza a inclusão, no aspecto da Escola de Penina, Santana do Ipanema-AL não lhe ofereceu resistência; ao contrário, todas as classes sociais matricularam seus filhos nesta escola inclusiva. E seu quadro de professores, mesmo numericamente pequeno, havia formação para lidar com aquela experiência pedagógica.
Quando ainda eram poucas as escolas básicas municipais em Santana do Ipanema-AL, e as escolas estaduais, surgiu a Escola Primária de Penina Ferreira. O poeta Marcello Ricardo Almeida, em um de seus 50 livros, homenageia a professora Penina com esta parlenda:

Penina, uma professora
magra, velha, ranzinza.
Experimentou pouco da vida,
e nunca, jamais foi menina.

Mas, na Escola de Penina,
Suas lições ofuscavam o Sol.
Ela ria, corria, pulava
Mais alegre que felina.
Se a tristeza era sua sina,
Penina em suas aulas fazia
mais barulho que um sino,
e enchia todos de fantasias.

Zero! da cara de farelo;
um! é fino que nem anum;
dois! se faz até com arroz;
três! parece um gordo freguês;
quatro! tem asa ou bico de pato?

Cinco! diz-se parecer um cinto;
seis! parece uma ave pedrês;
sete! é delgado que nem gilete;
oito! olhe – são dois biscoitos;
nove! é redondo igual um pote.

E a letra A com jeito de amor;
e a letra E tem cara de picolé;
e a letra I com jeito de siri;
e a letra O com cara de cipó;
e a letra U trejeito de urubu.

A professora Penina Ferreira, veio de um município da Bahia, na década de 1960, educadora de religião Batista, implantara em Santana do Ipanema-AL a primeira escola de inclusão. Pedagoga revolucionária e à frente de seu tempo, foi a Professora Penina quem teve a coragem e a responsabilidade pedagógica em inserir em uma mesma sala de aula alunos, no ensino regular, com déficits das mais variadas ordens, quer temporários, quer permanentes, graves ou não-graves. Esta professora assegurou, em Santana do Ipanema-AL, o direito de todos à educação, embora fosse uma escola particular.
Lamentavelmente, a Escola de Penina é só um capítulo de a história da educação em Santana do Ipanema-AL que se acabou, como também outras instituições educacionais de prestígios. Colégio Santo Alberto Magno, promissora instituição criada na década de 1980, extinguira-se. Assim como outra escola importante que é o Instituto Sagrada Família, durante muitos anos mantido por iniciativa de freiras holandesas, moradoras em Santana do Ipanema-AL, e dos padres católicos no município.


OS PRIMEIROS GRUPOS ESCOLARES


No governo de Osman Loureiro, em fins da década de 1930, é inaugurado o Grupo Escolar Pe. Francisco Correia, no bairro Monumento. A personagem Pe. Francisco Correia de Albuquerque era muito respeitável em Alagoas, vinculado à educação estadual. O nome para homenagear este marco da educação santanense é o de um dos pioneiros da igreja católica em Santana do Ipanema-AL. Quem construíra a Capela de Senhora Santa Anna, em 1787, dois anos antes da Revolução Francesa, foi o Pe. Francisco Correia de Albuquerque. Quando a localidade de Santa Anna passou a se chamar de “freguesia de Santana”, em 1836, o pároco, por indicação do bispo, foi Francisco Correia de Albuquerque (apenas chegaria a vila em 1875, e a vila em cidade no ano de 1921). Pe. Francisco Correia de Albuquerque era um intelectual atuante.
A importância do nome do Pe. Francisco Correia pesava na lista de conselheiros dos primeiros governos alagoanos. Lecionavam no Grupo Escolar Pe. Francisco Correia, sob a direção de Leopoldina Lima, as professoras Durvalina Cardoso Pontes, Hilda de Carvalho, Maria José Carrascosa, Marinita Noya e Iracema Salgueiro, além de outros educadores.
Esta instituição perde seu antigo nome de grupo escolar em 2000. E ganha o nome de escola estadual. Ocupando suas salas os três turnos de ensino.
Escola Estadual Batista Acioli, ou Escola do Bacurau, inaugura o ensino noturno em Santana do Ipanema-AL, no final da década de 1930. Ganha a alcunha de bacurau graças a coruja sertaneja. Outra instituição de ensino santanense que não logrou êxito, pois sua extinção deixou na memória dos santanenses apenas o seu apelido pejorativo de Escola do Bacurau, implantada no bairro São Pedro.
Outros grupos escolares foram criados em Santana do Ipanema-AL. No bairro Camoxinga, o Grupo Escolar Ormindo Barros, obra de Arnon de Melo (pai do presidente alagoano Fernando Collor de Melo), quando governou Alagoas na primeira metade da década de 1950. As primeiras professoras que contribuíram com a educação santanense neste grupo escolar, sob a direção da professora Durvalina Cardoso, foram Maria de Lourdes Wanderley, Beatriz Pereira, Sebastiana Medeiros, Geisa de Alencar e outros educadores.
Os grupos escolares foram substituídos por escolas municipais. E as escolas municipais, responsáveis com a educação fundamental. Muitas escolas de ensino fundamental engrandecem a história da educação em Santana do Ipanema-AL. Sem demérito as outras unidades escolares santanenses, a Escola Municipal Vereador João Francisco Cavalcante, sob orientação de seu quadro pedagógico e a comunidade escolar, trabalha com seus alunos a história do município sob enfoque de escritores da terra. Estimula-se a freqüência escolar e com este ideal se constrói o caráter da juventude que estuda na EMV J. Francisco Cavalcante.
A educação é o mais democrático e curto caminho para levar qualquer um ao topo social. A utopia em erradicar o analfabetismo em um Estado onde os eleitores representam o maior número de analfabetos se comparado aos outros da federação, a escola do ensino fundamental e seus heróicos educadores detem o poder em transformar sonho em realidade. Um Estado com os maiores representantes da literatura brasileira e, por conseqüência, mundial, neste rol estão os intelectuais Jorge de Lima, Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Lêdo Ivo, Pontes de Miranda, além dos nomes de Nise da Silveira, Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto (primeiro e segundo presidentes do Brasil, respectivamente), Zumbi, Teotônio Vilela, Hermeto Paschoal, Djavan, Zagallo, Guimarães Passos, este ajudou à criação da Academia Brasileira de Letras, além de outros nomes não menos importantes. Estes são os exemplos a serem seguidos na escola do ensino fundamental e jamais as figuras que envergonham a história.
Santana do Ipanema-AL, além da rede municipal, estadual e particular de educação, investe na realização do sonho de o município também poder oferecer ensino federal. Fortalecer o ensino no Sertão alagoano. Os filhos de Santana do Ipanema-AL e municípios circunvizinhos não se sintam obrigados a irem em busca de educação em centros acadêmicos maiores, onerando ainda mais suas famílias e distante dos seus.
O papel das escolas isoladas, de um único professor ou professora que administra a escola, cozinha a merenda, aplica as disciplinas deve ceder lugar a uma estrutura educacional moderna. As distâncias se encurtaram. A internet veio para provar que o distante ou o longe não existe mais.


AS PIONEIRAS NA EDUCAÇÃO SANTANENSE


Há acontecimentos interessantes neste capítulo (a educação) em Santana do Ipanema-AL; tendo um deles ocorrido assim: Após alguns séculos, as cidades habitadas por pessoas de diversas partes da Europa, passaram a viver como gente de uma grande e mesma família. União e solidariedade. Até se esqueceram de suas origens belicosas e da fome que ameaçavam a extinção de lugares e países, fruto do expansionismo europeu. Ninguém mais levava ao prato da balança do xenofobismo de onde tinham vindo os seus antepassados, embora estivesse na cara de cada um as características de povos de várias partes do mundo. Todos viviam em bons lençóis.
Com o desenvolvimento daquelas cidades centenárias, outras, no interior, no Sertão, distante do litoral, foram surgindo. O povo, a igreja, a delegacia, a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, o mercado, o comércio, a escola, as ruas pavimentadas, o rio periódico, as festas, os crimes, a agropecuária, a cultura, o folclore.
Houve uma época de prosperidade na primeira metade do XX. O governador, na Terra dos Marechais, foi orientado a mandar professoras às escolas das cidadezinhas no interior.
As professoras saíram da capital em direção aos grupos escolares recém-inaugurados em vários municípios. Moças de muitos refinos. Eram intelectuais preparadas nos melhores colégios da capital ou fora do Estado. Estas, no interior, ficavam hospedadas em residências de autoridades municipais.
Uma delas, Leocádia, filha única do galego Eurípedes e da índia Desdêmona, recebeu convite do Palácio do Governo e foi nomeada professora. Desdêmona, mãe de Leocádia, acompanhou a filha com medo de perdê-la. O pai, Eurípedes, ficou sozinho na capital do Estado. A mãe da professora Leocádia não suportava a distância da filha; Eurípedes, ressentido, aceitou o capricho da mulher e fez os gostos da filha, consentindo a distância, mesmo sendo tão apegado a Leocádia.
O coração de Eurípedes talvez não resistisse; e ele ocultou isto da esposa e da filha. Agüentou calado. Despediu-se. Viu o trem levá-las embora. Segurou-se. Estava sozinho. Tapou-se o mundo. Era o fim também para as duas mulheres que se aventuraram na viagem ao Sertão. O sonho de Leocádia em ser professora valia qualquer sacrifício.
Um dia, aconteceu o inesperado. A mãe da professora recebeu um telegrama que informava o falecimento de Eurípedes. O choque fez com que ela gritasse pelas ruas da cidade de Santana do Ipanema até o grupo escolar e, dele, arrancasse a filha para, imediatamente, voltar a Maceió; senão não daria tempo de irem ao enterro do pai.
Leocádia não se perdoava. A mãe agredia as estradas em péssimo estado de conservação. Asfaltada mesma só a estrada de Palmeira a Maceió. A rodagem de Palmeira a Santana era obra de Graciliano Ramos, quando prefeito em Palmeira dos Índios. E a demora na viagem até a próxima estação de trem, onde ambas embarcariam. Durante a viagem aconteceram repetidos desmaios, choros e lamentos.
Deixaram ambas as ruas do Sertão cheias de pessoas aflitas com a notícia da morte repentina de Eurípedes, em Maceió.
O prefeito, solidário, providenciou um transporte para que, o mais rápido possível, levassem mãe e filha onde embarcariam no trem até a capital. Quando ambas chegaram, nem conseguiam acreditar no milagre. Correram. Aproximavam-se da residência do morto. Elas sem fôlego.
A professora Leocádia e sua mãe Desdêmona, às pressas, sem perceberem o anormal. De longe, avistaram Eurípedes na calçada. O morto estava conversando com os vizinhos, como sempre fazia. Tranqüilo. Traquino. Mulher e filha aproximaram-se sem entender.
O pai lhes respondeu que a única maneira de matar a saudade era com a notícia de sua morte. Não agüentava mais tanta distância.
Certamente, a filha já tinha matado a vontade de ser professora; agora, voltasse para casa e matasse a saudade do pai.
Aqueles meses, sozinho, foram um inferno em sua vida. Nunca mais ficaria só, nem se fosse um pedido do Presidente da República que dirá do governador.
Leocádia tinha que se contentar.
Seu sonho, no Sertão, ou onde quer que fosse, não poderia matar seu pai de saudade. E apenas com um telegrama com aqueles dizeres poderia trazê-las de volta. O telegrama foi o avô do telex e o telex foi o pai do e-mail.
A educação dos sertanejos poderia ser feita por outras centenas de professoras nomeadas: professora Leopoldina, diretora Maria José Moritiba, professoras Iracema, Iluminata, Helena, Durvalina. Queria mais? Dona Adelsina, Dona Marina, Dona Ilda. Se for falar o nome de todas, continuou Eurípedes, eu não mato a minha saudade.


TEMPOS MODERNOS


Hoje é outro tempo. Era dos DVDs, 3D, 3G etc; e há pouco tempo o cinema em casa só chegava em VHS. Em menos de uma década, entretanto, as lojas de departamento se encheram de ofertas – TV de plasma e, em breve, TV digital em todo o país. Onde antes havia antenas espinhas-de-peixe que só captavam sinais se girassem-nas até encontrá-los e, mesmo assim, a TV era uma colméia cheia de abelhas; agora, a imagem é nítida e, num piscar de olhos, a programação televisiva ficará à mercê do telespectador. Santana do Ipanema-AL, nos anos setenta, se quisesse acompanhar a Copa do Mundo, deslocava-se à Maravilha cuja altura da serra definia melhor os chuviscos na transmissão para TV.
Depois do telefone celular, aparelhos tão minúsculos e surpreendentes, com internet e outros recursos impensáveis há uma década. O que se fará uma década depois? E o celular (um tijolo de 1kg) já tinha sido criado por Martin Cooper, engenheiro norte-americano, em abril de 1973, ou seja, há 35 anos.